Passados 7 meses desde a última postagem, é hora de finalmente sacudir a poeira e limpar as teias de aranha que se acumularam desde então. Na ocasião dei meu pitaco (ou sapatada, como a definiu o Biajoni) numa discussão interblogueira sobra a pertinência e importância da obra de Richard Dawkins, em particular do livro “Deus, um delírio”. A discussão meio que se encerrou, talvez por esgotamento dos participantes, após uma série de posts (começando com este) do Lelec, no A terceira margem do Sena , culminando num post índice: Guia incompleto de leituras sobre Dawkins e adjacências. Daí que a idéia inicial era dar seqüência à novela discussão criticando a crítica do Lelec, só que a crítica do Lelec não é uma crítica facinha como as de que falei no post anterior, exigindo portanto, um tratamento mais cuidadoso. O que toma tempo. Que ficou ainda mais escasso com outras demandas que surgiram nesse ínterim exigindo minha atenção, atrasando o post até agora.
Quer dizer, “até agora” em termos, pois esta ainda não é a crítica da crítica do Lelec, por isso interlúdio, para falar duas coisas relacionadas, e entreter os eventuais poucos interessados enquanto acabo de escrever.
Primeiro é que nesse meio tempo dei com o Eric MacDonald, e seu blogue Choice in Dying, que, como o nome já diz tem como tema central, ainda que não exclusivo, a questão do direito à morte assistida, e que vale a leitura continuada por si só. Mas, a questão é que o Eric, e foi como eu o achei, começou em Maio último uma série de leituras de resenhas de The God Delusion, acompanhando sua decisão de reler o livro 5 anos depois de tê-lo lido pela primeira e única vez.
I want to look at it through the eyes of its critics, in the conviction that by the weaknesses or strengths of their arguments, we will be able best to judge what is most effective about the book itself.
O que tem de especial na abordagem de MacDonald é que, diferente dos “neo-ateus” mais notórios como Dawkins, PZ Myers, Sam Harris, etc. não se pode acusá-lo de ser ignorante em Teologia, pois ele é um ex-padre (ou pastor, não sei) anglicano. De modo que é uma relação de textos que eu acho que vem se somar (apesar de serem em inglês) ao guia de leituras que o Lelec compilou. Seguem os links em ordem cronológica:
Duking it out over The God Delusion, Why there is almost certainly no God, The God Delusion on The Anthropic Principle, Peter S. Williams and The God Delusion, Stephen Law on the strengths and weaknesses of The God Delusion, H Allen Orr on The God Delusion, The Argument of Assertion, It’s all of a piece…, H Allen Orr on The God Delusion II, Ruse and Rhetoric, The God Delusion Again, Here We Go Again!
A segunda coisa que queria mostrar é que fiquei sabendo via Jason Rosenhouse que The Humanist publicou uma entrevista (“fascinante” nas palavras de Rosenhouse) com o jovem (21 anos em 30/10) Leo Behe, o 4º dos 8 filhos do católico Michael Behe, o notório bioquímico promotor do DI, autor do livro A Caixa Preta de Darwin, onde ele desenvolveu o conceito de Complexidade Irredutível, que supostamente invalidaria a Teoria da Evolução, etc. E daí o que certamente motivou a entrevista é a suprema ironia de, a despeito de seu pai ser quem é, e da sua formação (estritamente “homeschooled“) devotamente católica, Leo ser hoje um ateu declarado. Mas o que nos interessa, ou melhor, vem a propósito, é quando ele explica o papel que “Deus, um delírio” específicamente teve na sua desconversão (grifos meus):
There was a lot of buzz about The God Delusion back in 2008 when I read it, and it seemed to be having an impact on a lot of Christians’ faith. I had recently decided to turn my interest in apologetics toward atheism, and Dawkins’ bestseller seemed to be a good place to start. The God Delusion has been criticized for its allegedly infantile treatment of metaphysics, but that aspect of the book was not what originally challenged my faith. The point that hit me hardest while reading was the fallible origin of Scripture, which I had never considered (to my own surprise). That point in particular was what originally shook my specific faith—Catholicism—and planted seeds of skepticism, which continued to grow as I expanded my knowledge through other literary works on both sides of the issue.
Um ponto a observar de imediato é o testemunho que ele nos dá do impacto real da publicação de “Deus, um delírio” entre os religiosos, em particular os cristãos. O que de certa forma desmente a idéia acalentada por alguns, de que DUD seria incapaz de atingir quem já não fosse ateu, dado o seu tom agressivo. Outro ponto é que, considerando que o catolicismo em geral não é literalista bíblico, e tãopouco possui o mesmo fetiche que os evangélicos em relação ao Livro, não é interessante como foi justamente a parte de “Deus, um delírio” que trata das origens humanas, não-divinas das Escrituras, o que balançou as convicções deste estudante de filosofia, e não o “seu [de Dawkins] tratamento alegadamente ingênuo da metafísica”? O que, por sua vez, representa um contrafatual à idéia de que a abordagem “ampla” (“superficial” para alguns) de DUD seja uma das suas fraquezas. Esse rapaz jamais havia considerado a “falibilidade das origens das Escrituras” antes de ler DUD! Quantos como ele não haverão por aí?
Alguma dúvida de que Dawkins é necessário?
Interessante a dica do McDonald, vale o esforço de ler em inglês.
Interessante também o caso do Leo Behe. É bom que o livro do Dawkins desperte este tipo de curiosidade investigativa e, em última instância, um choque na fé de muitos. Espcialmente um cara homeschooled, o que significa que ele sofreu lavagem cerebral, e não educação.
Curioso é que quem estuda teologia a sério, se depara com a falibilidade das Escrituras há tempos. Digamos que é ponto pacífico desde o século XIX. “Ponto pacífico” não é o termo adequado, porque o fundamentalismo fez seu cavalo de batalha em torno disso. Mas o fundamentalismo é exatamente a interdição da teologia, justamente porque a reflexão teológica não tem compromisso com a hierarquia eclesiástica, nem com o dogma – tornando-se uma ameaça.
De qualquer forma, há muito cristianismo para além do teísmo e do biblicismo.
André
Grato pelo comentário.
Mas o que acho interessante no Leo Behe é que mesmo tendo recebido educação caseira religiosa, não se trata de um batista do Sul, ou alguém do Movimento Quiverfull (já ouviu falar? Fazem Malafaia parecer razoável). Ele era católico, e desse ponto de vista não deve ter sido mais “lavagem cerebral”, do que a que receberia em uma escola católica na Irlanda, por exemplo. Além disso católicos em geral não são literalistas bíblicos.
Tenho certeza que quem estuda teologia à sério sabe o quanto as escrituras são falíveis, e tem origem humana. A questão é que esse conhecimento não é compartilhado com os fiéis comuns. De um lado os fundamentalistas simplesmente rejeitam a idéia, e a combatem com afinco. E os liberais (falo dos teólogos num caso e no outro) se dedicam a produzir racionalizações, para mostrar como o texto bíblico continua “atual”. Uns e outros tem uma agenda, que não é a busca da verdade, na minha opinião.
Os católicos não são literalistas bíblicos, mas fazem algo parecido: concebem o magistério da igreja (na pessoa do papa) como infalível. Uns e outros tomam rumo parecido, católicos baseando na tradição apostólica (falsificada historicamente) e protestantes baseando numa leitura enviesada das escrituras (falsificada teologicmente).
O objetivo é o mesmo: aproveitar-se do sofrimento das pessoas para estorquir-lhes dinheiro e obter posições de poder, um esquema que é reproduzido em grande parte por pequenos agentes que estão no negócio com a melhor das intenções, reproduzindo um esquemão que nem imaginam onde vai dar.
O problema é que a religião continua sendo sentida como necessidade por uma parcela muito significativa da população, na medida em que funciona como espaço de convivência comunitária, conforto espiritual e explicação não material para o mundo.
Em geral, me parece que quem está fazendo teologia com mais responsabilidade intelectual não está em condições de suprir essa carência das pessoas, daí os fundamentalistas continuarem a ocupar os espaços-chave.
É uma luta inglória meu caro.
André
Eu não fiz julgamento de valor sobre do catolicismo, implicar que ele é melhor, ou algo assim. De modo algum. De todo modo, toda doutrina religiosa é fundada na autoridade. Seja na autoridade do papa, do bispo, do pastor, do guru, ou na de um livro.
Não sei o que você quer dizer com “falsificada teologicamente”. Você pode explicar? Que critérios teológicos te permitem dizer que tal ou qual leitura das escrituras é “enviesada”? O que seria uma leitura não-enviesada?
Leitura enviesada das Escrituras é cobrar que a narrativa bíblica seja precisa e fiel como documento histórico e científico quando – coisa que nunca pretendeu ser.
Falsificada teologicamente: um exemplo seria a doutrina criacionista, ou qualquer outra ginástica para ler a Bíblia de maneiras diferentes conforme o dogma que se queira defender.
André
Mas o criacionismo foi falsificado pelas Ciências, pela Física, pela Cosmologia, pela Geologia, pela Biologia, pela Arqueologia, e não pela teologia. E me parece que “ginástica para ler a Bíblia de maneiras diferentes conforme o dogma que se queira defender”, é o que todos fazem, desde sempre. Inclusive você. De fato teologia me parece a mera construção de uma justificativa ex post para leituras particulares.
A menos que você possa me mostrar que há uma forma “correta” de ler a Bíblia, que invalida todas as outras, e que há critérios objetivos que a justificam.
A Bíblia “nunca pretendeu ser” um documento histórico e científico? Estranho, porque vê-la dessa forma era uma atitude respeitável até uns 200 anos atrás, por baixo.
Salve, Felino!
Estou voltando à vida cibernética depois do inverno.
Vou ler este seu texto com a atenção que ele merece e, se possível, as referências sugeridas. Aí volto aqui e escrevo um comentário pertinente.
Muito obrigado pelos links aos textos lá da TMS.
Ah, sim, Dawkins é muito necessário!
Abração
Valeu Leo!
Não tem de quê.
Tenho acompanhado o Eric MacDonald, e o recomendo enfaticamente.
E fique ligado que vem mais por aí.
[]‘s